Estudo clínico avaliou como a suplementação para articulações de cães influenciou mobilidade, dor crônica e sinais de osteoartrite.
Dificuldade para se levantar, menor disposição para caminhar, resistência para subir escadas e redução das brincadeiras podem estar relacionadas a diferentes problemas de saúde. Em cães adultos e idosos, essas alterações também podem aparecer em casos de osteoartrite.
A osteoartrite é uma condição crônica que afeta as articulações e pode comprometer a mobilidade e a qualidade de vida do animal. Seu diagnóstico deve ser realizado por um médico-veterinário, considerando o histórico, os sinais clínicos, o exame físico e, quando necessário, exames de imagem.
Além do controle de peso, da adaptação dos exercícios e dos tratamentos prescritos pelo profissional, a suplementação para articulações de cães tem sido estudada como uma possível ferramenta nutricional complementar.
Uma pesquisa publicada em 2022 avaliou os efeitos de um suplemento composto por diferentes ingredientes utilizados na nutrição articular. Os resultados ajudam a entender o potencial dessa estratégia, mas também mostram por que nenhum suplemento deve ser tratado como solução isolada.
A pesquisa foi realizada por Elisa Martello, Mauro Bigliati, Raffaella Adami, Elena Biasibetti, Donal Bisanzio, Giorgia Meineri e Natascia Bruni.
Os pesquisadores estavam vinculados a instituições como a Universidade de Nottingham, o Departamento de Ciências Veterinárias da Universidade de Turim, o Instituto Zooprofilático Experimental de Piemonte, Ligúria e Vale de Aosta e uma clínica veterinária localizada em Turim, na Itália.
O artigo foi publicado na revista científica PLOS ONE com o título “Efficacy of a dietary supplement in dogs with osteoarthritis: A randomized placebo-controlled, double-blind clinical trial”. Em português: “Eficácia de um suplemento alimentar em cães com osteoartrite: um ensaio clínico randomizado, duplo-cego e controlado por placebo”.
A pesquisa completa possui acesso aberto e pode ser consultada na PLOS ONE.
O estudo acompanhou 40 cães com diagnóstico de osteoartrite confirmado por avaliação radiográfica. Os animais apresentavam comprometimento em articulações como cotovelos, joelhos e quadris.
Os cães foram divididos aleatoriamente em dois grupos:
Por ter sido uma pesquisa duplo-cega, os responsáveis pelas avaliações e os tutores não sabiam quais cães pertenciam ao grupo suplementado e quais recebiam o placebo. Esse método reduz a influência das expectativas pessoais sobre os resultados.
Participaram cães com mais de seis meses, peso entre 10 e 60 quilos e sinais radiográficos de osteoartrite. A idade mediana dos animais foi de aproximadamente 8,2 anos.
Os cães que haviam utilizado anti-inflamatórios, corticosteroides ou outros suplementos nos 14 dias anteriores ao início do estudo não foram incluídos. Animais com dor aguda, cirurgia recente, trauma ou condições neurológicas também foram excluídos.
A fórmula avaliada continha uma combinação de:
A quantidade administrada foi definida conforme o peso corporal. O protocolo utilizou um comprimido de dois gramas para cada dez quilos de peso, uma vez ao dia.
É importante esclarecer que a pesquisa avaliou uma combinação específica. Portanto, não é possível concluir que cada ingrediente produziria, isoladamente, os mesmos resultados.
Também não se pode afirmar que qualquer produto contendo glucosamina ou condroitina terá desempenho equivalente. A concentração, a origem das matérias-primas, a associação dos nutrientes e a quantidade administrada podem influenciar o resultado da suplementação para articulações de cães.
Os animais passaram por avaliações veterinárias no início da pesquisa, após 40 dias e ao final de 60 dias.
Um médico-veterinário com experiência em ortopedia avaliou os sinais clínicos relacionados à osteoartrite, incluindo o grau de dificuldade de movimentação e a presença de claudicação.
Os tutores também preencheram o Índice de Dor Crônica de Helsinki, conhecido pela sigla HCPI. Esse questionário é utilizado na medicina veterinária para avaliar mudanças comportamentais e funcionais associadas à dor crônica.
Entre os aspectos observados estavam:
A utilização conjunta de avaliações veterinárias e relatos dos tutores permitiu analisar tanto os sinais clínicos quanto o comportamento dos cães em casa.
No grupo que recebeu o suplemento, 14 dos 20 cães apresentaram melhora na pontuação clínica avaliada pelo médico-veterinário. Os outros seis permaneceram com a mesma classificação.
No grupo que recebeu placebo, apenas um dos 20 cães apresentou melhora. Dezesseis permaneceram com a mesma classificação e três apresentaram piora durante o período observado.
Ao final dos 60 dias, a diferença entre os grupos foi considerada estatisticamente significativa. Os questionários preenchidos pelos tutores também identificaram redução da pontuação relacionada à dor crônica no grupo suplementado.
Segundo os autores, foram observadas mudanças em aspectos como disposição para se movimentar, brincar e saltar.
Os resultados do Índice de Dor Crônica de Helsinki apresentaram diferença significativa entre o grupo suplementado e o grupo placebo ao final do estudo.
Nenhum efeito adverso, como vômito, diarreia ou falta de apetite, foi relatado pelos tutores durante a pesquisa. Os exames de sangue permaneceram dentro dos intervalos de referência nos dois grupos.
O estudo não demonstrou regeneração da cartilagem. Essa é uma diferença fundamental.
As radiografias foram utilizadas no início da pesquisa para confirmar a presença de osteoartrite, mas não para provar que houve reconstrução ou recuperação estrutural das articulações.
Os resultados indicaram mudanças nos sinais clínicos, na mobilidade e na pontuação relacionada à dor. Portanto, seria incorreto transformar essa pesquisa em uma afirmação de que a suplementação para articulações de cães recupera cartilagens ou cura a osteoartrite.
A osteoartrite é uma condição complexa e progressiva. O acompanhamento veterinário continua necessário mesmo quando o animal utiliza um suplemento nutricional.
O primeiro ponto é o número de participantes. Embora o estudo tenha utilizado placebo e distribuição aleatória, apenas 40 cães participaram. Pesquisas maiores são necessárias para confirmar os resultados em diferentes populações.
O segundo ponto é a duração de 60 dias. O trabalho não demonstrou o que aconteceria depois de seis meses, um ano ou durante a utilização contínua do suplemento.
A pesquisa também não comparou o suplemento diretamente com medicamentos anti-inflamatórios. Por isso, não é possível concluir que a fórmula seja superior ou equivalente aos tratamentos farmacológicos prescritos por médicos-veterinários.
Outra limitação é que os cães apresentavam diferentes articulações afetadas e diferentes graus de osteoartrite. Essa diversidade representa situações encontradas na rotina clínica, mas também dificulta a padronização dos resultados.
A pesquisa recebeu apoio da Candioli Pharma, fabricante do suplemento testado. A empresa forneceu os produtos, pagou as despesas de publicação e supervisionou o cumprimento do protocolo científico.
Os autores declararam que Elisa Martello e Mauro Bigliati receberam pagamentos como consultores da empresa. Raffaella Adami e Natascia Bruni eram funcionárias da fabricante.
Segundo o artigo, a financiadora não participou da decisão de publicar nem da preparação do manuscrito. Mesmo assim, a relação financeira representa um possível conflito de interesse e deve ser considerada na interpretação dos resultados.
Isso não significa que o estudo seja inválido. Porém, reforça a necessidade de pesquisas independentes que reproduzam os achados.
Os suplementos articulares podem apresentar diferentes composições. Glucosamina, condroitina, colágeno tipo II, ácido hialurônico, minerais, extratos vegetais e ácidos graxos são alguns dos componentes encontrados nesses produtos.
Cada ingrediente possui características específicas. Além disso, a presença de um nutriente no rótulo não garante, por si só, um resultado clínico.
Ao avaliar uma suplementação para articulações de cães, é necessário observar:
A comparação entre produtos deve considerar a composição e o custo diário de utilização, não somente o tamanho da embalagem.
Cães idosos estão entre os animais que mais frequentemente apresentam alterações de mobilidade. Entretanto, problemas articulares não acontecem exclusivamente na velhice.
Animais de grande porte, cães com excesso de peso, indivíduos geneticamente predispostos, cães atletas e animais que sofreram lesões também podem necessitar de acompanhamento mais cuidadoso.
Mesmo assim, idade ou porte não são suficientes para iniciar uma suplementação para articulações de cães de maneira automática. A dificuldade de locomoção pode estar relacionada a problemas ortopédicos, neurológicos, musculares ou metabólicos.
Oferecer um suplemento sem investigar a causa pode atrasar o diagnóstico correto.
Não. O peso corporal exerce influência direta sobre a carga aplicada nas articulações. Um cão com excesso de peso precisa fazer mais esforço para se levantar, caminhar e subir escadas.
A suplementação para articulações de cães não compensa o impacto de uma alimentação excessiva ou de uma condição corporal inadequada.
O cuidado articular pode envolver diferentes medidas, como:
A melhor abordagem depende do diagnóstico e das características individuais do cachorro.
O estudo publicado por Elisa Martello e sua equipe identificou melhora nos sinais clínicos e na pontuação relacionada à dor crônica em cães com osteoartrite que receberam uma fórmula contendo glucosamina, condroitina, ácido hialurônico, colágeno tipo II não hidrolisado e extratos vegetais.
Dos 20 cães suplementados, 14 apresentaram melhora na avaliação veterinária. No grupo placebo, apenas um dos 20 animais melhorou.
Ao final de 60 dias, os tutores também relataram mudanças positivas em aspectos relacionados à mobilidade.
Os resultados são promissores, mas não demonstram cura, regeneração da cartilagem ou substituição dos tratamentos veterinários. O número reduzido de animais, o período curto de acompanhamento e o vínculo financeiro com a fabricante precisam ser considerados.
A suplementação para articulações de cães pode integrar uma estratégia nutricional mais ampla, desde que seja escolhida de forma responsável e utilizada conforme as necessidades do animal.
Aviso: Este conteúdo possui caráter exclusivamente informativo. Suplementos não substituem diagnóstico, tratamento, medicamentos ou acompanhamento realizado por médico-veterinário.
Martello, E.; Bigliati, M.; Adami, R.; Biasibetti, E.; Bisanzio, D.; Meineri, G.; Bruni, N. Efficacy of a dietary supplement in dogs with osteoarthritis: A randomized placebo-controlled, double-blind clinical trial. PLOS ONE, v. 17, n. 2, e0263971, 2022. DOI: 10.1371/journal.pone.0263971.
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